Você NÃO precisa ler 100 livros em um ano

Literatura Publicado em 04/06/2015 por Glizia
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Vivemos em um mundo onde a internet domina a nossa vida. Estamos conectados a todo momento, fazendo atualizações sobre tudo o que aconteceu. Foi em um lugar diferente? Dá check-in no Swarm. Comeu algo diferente? Tira uma foto e posta no Instagram. Tá revoltado com alguma coisa na sua vida? Escreve sobre isso no Facebook. Ou só ficou chateado e não quer que ninguém próximo saiba e só quer desabafar? Twitter irá te receber de braços abertos. Porém agora existe uma plataforma que me mantém atualizada, me informa e ainda serve como entretenimento. Essa plataforma linda é o YouTube.

Nela eu encontro de tudo: passo a passo de fazer um prato de comida, um artesanato, uma maquiagem, um penteado, costurar uma roupa; me divirto vendo

canais de comédia, como Porta dos Fundos, Parafernalha, e muitos outros que eu sei que você conhece; Eu vejo pessoas dando suas opiniões sobre diversos assuntos; Vejo pessoas jogando e levando su

stos. Bem, muita coisa acontece por lá, mas pra mim a melhor parte do YouTube é o booktube.

Eu sempre soube que eu lia muito. Desde que me conheço, tenho esse fascínio por leitura, e que com o tempo foi crescendo. E que se não fosse por ele e minha paixão pela matéria de Literatura, eu não teria escolhido fazer Letras. E hoje, se não fosse pelas matérias de Linguística e Análise do Discurso, eu não seria mais eu mesma em minha mais pura essência.

Calma, eu já vou te contar os porquês que você não precisa ler muitos livros em um ano, mas enquanto isso, espere, pegue um café, sente comigo, e vamos conversar.

Bem, isso não é uma ação que acontece no booktube, mas lá é onde eu mais encontro esse tipo de comportamento. Começando que a internet está numa fase de listas infinitas. ” 10 comidas de tal lugar que você precisa comer”, ” 50 livros que toda pessoa deve ler antes de morrer”, ” 7 filmes para assistir junto com o amor no dia dos namorados”, e chegamos até em listas de ” as 15 coisas que todo brasileiro faz na Disney e matam todos de vergonha”. Então, com isso conhecemos listas como ” 12 livros para 2015″, ” 10 melhores livros do ano”, ” 10 piores livros do ano”. E é normal isso acontecer. Mas agora as proporções estão gigantes.

Toda vez que vejo um vídeo de conclusão das leituras do mês um sentimento de culpa me assombra. Eu vejo pessoas falando que leram cinco, sete, nove livros no mês, enquanto eu li apenas dois. Duas leituras que não me fariam muita falta, pois não acrescentaram muita coisa. Mas me entreteriam, e isso já bastou para mim. E quando eu vejo nos comentários pessoas falando ” ai, dez é um número muito baixo, você deveria ler mais.” Eu tenho vontade de colar uma estrelinha na testa da pessoa. Olha só como você se tornou importante, mas me conta, o que você extraiu desse livro lendo tudo isso?

Queria saber de onde as pessoas tiram essa ideia de que é lindo dizer que leu mais de 500 livros em um ano. Primeiro que quando alguém me falar isso, eu pensarei que foi um ano da vida da pessoa jogada fora. Ler é muito bom, principalmente quando amamos a história, e eu recomendo sempre a todos. Mas assistir um filme também é bom. Acompanhar sua série favorita, melhor ainda. Sair com familiares, amigos, namorado? Melhor hora. E ler tudo isso?
Me assusta saber que existem pessoas que a aplaudem uma menina por ter uma meta de 500 livros em um ano. Mas me digam, até você que lê mais de 100 livros por ano ( quer uma estrelinha? Se sente melhor que alguém por isso? Olha, acho que você está fazendo isso errado viu?) o que mais você fez?

Parece até que somos obrigados a ler quatro livros em um mês. Olha gente, a única obrigação que eu tenho é estudar. Nem é tirar notas boas, isso aí é algo que meus pais me impõem. Mas eu me obrigo a estudar. E a ajudar em casa. Eu não sou obrigada a nada, nem a ver meu namorado quando ele volta para a cidade. Se eu não quiser, eu não vejo. ( Mas aí entramos em outra discussão que não é sobre leitura). E nos sentimos numa obrigação ainda maior quando vemos as pessoas na internet postando quase que diariamente capas de livros lidos.

Sobre a prática, eu acho legal, até faço. Mas se você ficar pensando que precisa ler puramente porque fulaninho leu cem livros ano passado e então é seu dever ler, você está muito enganado. Você não precisa ler tudo isso. Aliás, você nem é obrigado a ler.

Claro que na escola você é, mas ninguém aqui está te obrigando a ler a trilogia Divergente, a saga Harry Potter, a acompanhar livros e temporadas de Game of Thrones. Você se obriga porque vê os outros fazendo. Eu faço isso também. Ou você acha que eu não preenchi a quantia sonho de leitura para esse ano no goodreads? ( Que aliás, foi o dobro do ano passado).

Não sou hipócrita para falar que você, querido leitor, é quem tem que pensar no assunto, eu quero só te ajudar a perceber que querer ler 500 livros em um ano é um absurdo, e que é uma prática que eu não concordo. Eu apoio qualquer pessoa a ler qualquer tipo de livro, revista em quadrinho, mangá, qualquer coisa. Mas se você chegar pra mim me dizendo que quer ler 500 livros em um ano, eu vou rir da sua cara e usar de um meme. Seje Menas. Leia Menas.

Vamos falar sobre a famosa “Qualidade x Quantidade”. Eu sempre fui uma pessoa adepta a isso, muitas vezes prefiro fazer pouca coisa, mas que tudo fica bem feito, do que fazer muita coisa, e ficar tudo uma m****. O que eu consigo tirar com 500 livros lidos talvez não será tão grande como o que eu aprendi com O Cortiço, Madame Bovary e Morte e Vida Severina. Entende o meu ponto? Leitura não é algo quantitativo, e nunca deveria ser olhada assim. Leitura é algo qualitativo. Claro que eu aprendi muito lendo A Culpa é das Estrelas, O Doador de Memórias, Jogos Vorazes então, se um dia eu for professora de literatura vai ser a leitura de férias dos meus alunos, não porque eu quero ser alguém legal, mas que podemos discutir muita coisa com esse livro.

Quando você estipula ler 500 livros em um ano, você sabe que não vai ter tempo de absorver essa história. Não será capaz de retirar daquela história algo que modifique a sua maneira de viver. Isso é uma das melhores coisas que a literatura nos dá: a capacidade de instruir e divertir.

Claro que nesse momento você torceu seu nariz e pensou ” mas a minha leitura obrigatória da escola não é assim” e pode até não ser, mas vai dizer que você não se divertiu lendo Harry Potter? Ou lendo Crepúsculo? Eu aprendi muito mais com esses livros do que conversando com amigos. E existem coisas que só com eles você se sentirá confortável para falar.

E vendo uma menina escolher ler tudo isso ao invés de selecionar livros que ela realmente queria ler e passe esse tempo lendo, me desanima um pouco. Me desanima porque vivemos em uma época que números são importantes. E antes esses números fosse o dinheiro no banco ou o dólar alto. Os números importantes são as curtidas no facebook, os likes no instagram, os inscritos de um canal, os seguidores de um twitter. Hoje em dia, é isso que faz o mundo mover. ( Bem, aparentemente, porque o que faz meu mundo mover é o dinheiro no banco e a cotação do dólar)

O que uma pessoa que leu tudo isso vai absorver de suas leituras? Para mim a graça de ler não é falar ” li um livro de 3000 páginas”, e sim dizer o que eu aprendi com aquela história. Será que com esse número gigante ela vai fazer isso? Será que levando não sei quantas horas lendo, ela vai compreender a grandiosidade de um livro?
Novamente um caso que estou cansada de ver: as pessoas entenderem que quantidade significa qualidade, e que se os números estão altos, quem somos nós para dizer que não está dando certo?

Aliás, quero tornar o  Seje Menas. Leia Menas meu novo slogan. Não que eu quero incentivar as pessoas a lerem menos do que querem/podem/devem, mas sim para tentar diminuir essa loucura que se forma hoje de que você precisa ler uma quantia absurda de livros no ano. Esse meu slogan daria frente a um grupo de pessoas que sentariam para falar sobre as loucuras que passam em suas cabeças para terminar de ler um livro logo, para enfim, poder tirar foto, colocar como lido em redes sociais, e ele apenas contar como mais um.

Por fim, não quero que as pessoas entendam que eu sou contra o hábito de ler, contra a vontade de ler vários livros, nós somos como qualquer outra pessoas. Gamers desejam jogar todos os jogos já lançados, cinéfilos possuem uma lista muito extensa de filmes favoritos, e não existe problema algum em você falar que quer ler 500 livros em um ano.

Para mim, o problema é que você  praticamente deixa de viver a sua vida para ler, e isso não é uma coisa muito boa. A partir do ponto que você deixa de viver para fazer algo, essa coisa não te faz bem, aliás, te faz mal e você precisa parar.

E se você quiser, sinta-se a vontade para chorar suas pitangas de ” existem tantos livros no mundo e eu não lerei todos”, que eu choro junto com você enquanto assistimos um vídeo da Tatiany Leite no Cabine Literária.

Indico também a leitura desses textos: Sábias Palavras, Startup CEO, Época. E vejam esse vídeo lindo e maravilhoso da Tatiany e do César do Cabine Literária.

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