Acho que não consigo mais ler

Literatura Publicado em 11/09/2015 por Glizia
Sem Comentários

Eu sempre escuto que leio muito, que sou um exemplo a se seguir nesse quesito, porque no final do ano eu tenho uma margem de sessenta livros lidos na estante do Skoob. Escuto que as pessoas deveriam se espelhar em mim, e que todo mundo deveria ler mais. Sim, isso mesmo, ler mais.

É então que você, que assim como eu, acredita que as pessoas deveriam ler mais livros, se pergunta porque acho estranho alguém falar que nós, brasileiros, devíamos ler mais. É bem simples na verdade: quantos posts do facebook você lê por dia? Quantas notícias você vê pelo seu facebook e para para ler? E aquelas que você só lê os comentários para ver as discussões se formando? Nós lemos, lemos muito. Mas talvez, o que precisamos é de um funil.

O que eu vou tirar lendo que a Urach virou pastora? Ou que a fulaninha dos Kardashian fez outro ensaio para mostrar a barriga de grávida? Agora quanto eu vou tirar de um post que explica como funcionam algumas leis que pedimos? Ou até comparar uma mesma notícia por jornais com visões claramente opostas?

Então eu vejo pessoas da minha idade, e algumas mais velhas, me dizendo que não conseguem ler mais, que não conseguem mais ter foco para um texto grande, e que é realmente difícil se desconectar da internet para poder focar somente na leitura.

Eu sigo uma mulher que me ensinou muito sobre como ler, otimizar sua leitura e ler mais de um livro ao mesmo tempo. O nome dela? Tatiana Feltrin, do canal Tiny Little Things. Em um vídeo de FAQ, ela explica como faz para ler mais de um livro ao mesmo tempo, e como consegue ler tanto. Bem, ela estabelece uma meta de cem páginas por dia, não precisa ser do mesmo livro, mas ela deve ler cem páginas por dia. Isso dá mais ou menos duas horas por dia lendo.

Se você se locomove pela cidade de ônibus, já achou as suas duas horas por dia de leitura. Ida e volta da escola, faculdade, trabalho. Já ajuda bastante. Mas cinco segundos depois de abrir o livro, você precisa ver o que te mandaram no whatsapp, ou precisa reclamar que o ônibus está lotado, ou que existe alguém perto de você fazendo algo que você não goste. Depois disso, vai para o face e faz o mesmo post. Abre o Instagram, ou o Snapchat, e tira uma foto para mostrar que, olha só, está lendo um livro no ônibus. Bem, assim, claramente você não vai conseguir ler.

É praticamente impossível ficar desconectado, eu mesma não consigo fazer isso. Usamos tanto as redes sociais que criamos uma dependência. Eu preciso saber se alguém está na mesma situação que eu, se também está tentando ler e não consegue por ter um celular com 3G. Eu preciso entrar no Twitter para saber o que aquela blogueira que eu sigo postou que está dando tanta discussão na internet. Eu preciso conhecer o novo meme que estão lançando sobre outro vídeo aleatório que postaram no Facebook.

E isso é normal, mas toma muito do nosso tempo. Quantas horas do seu dia você gasta lendo os updates de outras pessoas? Quantas horas do seu dia estão sendo gastas com textos e mais textos supérfluos sobre amor perfeito, sobre não ser uma dessas, sobre listas e mais listas de coisas aleatórias? Agora quanto desse tempo você acha que podia gastar lendo algo importante. Nem precisa ser um livro, pode ser um artigo legal que fale sobre a guerra das Coreias.

Existe o lado bom da tecnologia e os textos, a proximidade que temos de poder ler algo em nosso celular, ou seja, você nem precisa carregar um peso extra referente ao livro. Mas ao mesmo tempo estamos mais conectados, mais inteirados e recebendo mais informações. O problema é que ainda não aprendemos a filtrar aquilo que não nos fará falta daquilo que realmente importa.

Chegará a hora em que aprenderemos a usar as redes sociais para algo mais útil do que posts que te mostram felizes, mesmo que, naquele momento, você esteja triste. Se a gente não filtrar aquilo que queremos bem, aquilo que sabemos que é importante, ficaremos perdidos em posts e mais posts que só servem de entretenimento, e nunca nos aprofundaremos em nenhum assunto ou história. Seremos mais superficiais pelo resto da nossa vida.

Entenda que, como já falei antes, quantidade não é qualidade. E que cada pessoa é de um jeito, mas o que eu queria passar com o post seria um abraço amigo dizendo que estou aqui para ajudar se você quiser voltar a ler, se não quiser mais também, para conversar e discutir sobre tudo o que está acontecendo hoje. Eu só peço uma coisa: nunca pare de ler.

Esse post foi inspirado no texto de Wagner Brenner: Socorro, não consigo mais ler livros.

Postagens relacionadas:

Top de Domingo!- Livros que estão atrasados
Tag Literária- Opostos
A Estrada da Noite, Joe Hill
Quantic Love, de Sonia Fernández -Vidal
Resenha | A Rainha Vermelha (#1)

0 Comentários

Deixe o seu comentário!

Facebook