A supervalorização do livro físico

Literatura Publicado em 25/06/2015 por Glizia
Sem Comentários

Atire a primeira pedra quem nunca comprou um livro porque a capa era bonita, ou que simplesmente ficaria bonito enfeitando o quarto. Uma coisa é não querer ler a sinopse porque pensa que continuará não sabendo o que se passa no livro, mas outra é comprar o livro sem querer saber do que se trata, apenas como algo decorativo. Então você gosta do cheiro do livro, de sentir o papel, de poder olhá-lo na sua estante e mostrar que ostenta livros para os amiguinhos no instagram e no facebook.

Ultimamente eu me sinto saindo dessa parcela de leitores que dizia ” Eca, não quero ebook na minha vida. Perde a graça de degustar o livro como um todo. Qual a graça de ler se eu não posso cheirar o livro?”. Bem, eu te digo, a graça é ler o livro não importa seu formato. Claro que existem pessoas que acham graça colecionar e montar uma estante, e sentir aquele cheiro delicioso de livro novo, mas quando você percebe que o prazer de ler é maior do que o prazer de ter, isso muda.

Veja bem, não estou falando que devemos praticar um desapego profundo e que vamos queimar os livros físicos, ao contrário. Eu sou desse tipo de pessoa que quer fazer coleção e ostentar e tirar fotos pra postar na internet. Existe algo ruim nisso? Talvez. Será que vale a pena falar sobre isso? Talvez.

Eu li uma reportagem que fala que autores brasileiros não investem no mercado de ebooks, porque as vendas de livros físicos ainda dominam por praticamente 97% de toda compra de livros no Brasil, ou seja, apenas 3% de todos os livros comprados no ano são livros para a plataforma digital. Então, falar que editoras e livros não querem investir em publicação digital fica bem óbvio.

Mas vamos parar um momento para refletir sobre esse meu último parágrafo. A amostragem que usarei será eu e as pessoas ao meu redor, para ilustrar um pouco o porque esse último parágrafo é bem óbvio. Bem, eu tenho um Kindle e vivo uma vida muito feliz com ele. Livros como o da Giovanna Fletcher e da Carrie Hope Fletcher que são livros que demoram para vir para o Brasil, eu comprei na pré-venda. Ainda mais porque eu tenho a chance de poder ler no original, o que, reconhecendo o ensino brasileiro, é algo ainda bem incomum.

Quando alguém vê que estou usando o kindle para ler normalmente me fala que: ” Não gosto de ler livro digital. Prefiro livro físico.” E quando eu pergunto o motivo, a pessoa me fala que é porque gosta de cheirar o livro, e todo esse ritual que citei no começo do texto. Mas será que isso é ler? Será que é necessário a gente ter todo esse apego com livros? Para mim ler é basicamente o que significa. Não tem muito dessa de ” livro físico é bom porque você sente o papel”, mas são as mesmas pessoas que praticamente morrem se verem um livro com anotações, marca textos e outras marcas. São pessoas que tem nervoso se você não lê o livro semi fechado para não marcar ele.

Deve chegar um momento na vida que percebemos que o importante não é quantos livros temos, quantos livros lemos, quantas estantes lotadas temos, mas sim quantas experiências tivemos com essas leituras. Acho importante, nesse momento, citar o meu primeiro textão aqui no Choconatos: Você não precisa ler 100 livros em um ano. Lá eu falo sobre a loucura que envolve querer atropelar leituras. Aqui eu falo sobre como esse atropelamento pode envolver algo como a economia.

Então o que eu mais encontro são pessoas que repudiam o formato eletrônico, seja porque cansa a vista, porque quer ostentar, ou qualquer outro motivo. Enquanto eu vejo no booktube cada vez mais pessoas aderindo a esse formato.

Para mim o kindle abre portas. Eu encontro muito mais livros em inglês, coisa que é difícil de encontrar nas livrarias da minha cidade. E não tem essa de comprar um livro em inglês sobre um assunto que você não acha interessante porque é o único que tem pra poder treinar inglês. Eu encontro livros que ainda serão publicados no Brasil, ou que simplesmente estão em português e eu quero ler.

Mas o mercado não é tão receptivo. Enquanto eu pago por apenas letras, nós somos bombardeados por edições maravilhosas, como a comemorativa de Garota Submersa e Os Instrumentos Mortais. Enquanto temos tudo em um aparelho eletrônico, as pessoas querem algo para que possam se relacionar. Em uma era digital, ninguém quer um livro digital.

Quando eu li a reportagem apenas os números foram uma surpresa, não sabia que era tão pouca essa porcentagem. De resto, escutar editora falando que não sabe ainda se quer investir nesse formato, autores  falando que não é tão bom publicar esses livros sem ser em formato físico, é bem óbvio, quando se escuta de pessoas que sentir o livro é mais importante que lê-lo.

Finalmente chegamos ao título do post: Livro físico é superestimado.

Eu não serei hipócrita o suficiente para falar que deveríamos praticar o desapego, sendo que nem eu consigo fazer isso. Eu não consigo marcar as páginas do meu livro, não dá. Mas quando isso vira um modo de vida, acaba se tornando algo nocivo. É só perceber comentários em vídeos onde a pessoa mostra um livro cheio de marca texto, anotações a caneta, e marcas na capa. Parece que elas estão tendo um ataque de pânico.

Mas qual a diferença de ler um livro físico e ler um livro digital? Para mim não tem diferença. Eu me importo com o conteúdo do livro, e não com sua aparência, então acaba que eu não ligo muito para a forma, mas sim pelo conteúdo. Porém, pelo o que observo, é comum uma pessoa não ler um livro porque é digital.

Como comentei em um vídeo da Veronica Valadares, eu uso meu kindle pra tudo, coloco as apostilas da faculdade, livros do domínio público que eu preciso ler para as aulas da faculdade, artigos que eu preciso ler para estudar, sem contar livros para meu divertimento. Acabou que um kindle me foi mais útil do que um tablet.

Nós supervalorizamos o livro físico? Claro que valorizamos, é como aquela roupa nova que você compra especialmente para uma ocasião e nunca mais pega nela. Sem contar que livros ocupam espaço. Mais de 70% do meu quarto tem livros em volta, até no meio das minhas roupas tá sendo provável encontrar livros porque não tenho mais espaço na minha estante. Isso é ruim? Claro que é! Quantos desses livros eu realmente irei reler? Quantos desses livros eu nem quero mais saber? E deixarei guardado? Não, meu desejo é: assim que eu me mudar, irei dar para amigos, doar e até trocar pelo skoob.

A valorização do livro físico é algo que eu relaciono muito com algumas coisas que percebo por seguir muitos blogueiros e estar imersa nesse mundo. São várias capinhas de celulares, roupas, tênis, acessórios. Coisas que muitas vezes não é necessário ter muito, mas as pessoas tem. Como inúmeras maquiagens. São três bases líquidas, cinco bases em pó, três mágicas que você assopra e já cobriu seu rosto perfeitamente. Agora me diz, você vai mesmo usar tudo isso? Ou não vai perder algumas por validade?

Por fim, fica a reflexão: dos livros que você tem, quantos você segura em casa porque acha bonitos? Quantos você deixou de emprestar porque  tem medo das pessoas não cuidarem? Quantas histórias você deixou de conversar porque o seu precioso livro não pode ser amassado? Deixe de ser um Smeagol. A leitura já não é comum no país, como você quer ajudar a melhorar se não empresta aquela história emocionante para o amiguinho?

 

PS: Eu adoraria dizer que esse foi um publipost de algum ebook, mas não foi. As vezes é bom fazer esse tipo de post apenas para tentar abrir a cabeça de algumas pessoas.

Postagens relacionadas:

Post de Apresentação: Julia A. – Política e Literatura
Resident Evil: The Umbrella Conspiracy chega finalmente ao Brasil!
E-books : será o novo sucesso no mercado?
Mais um filme para 2014! - A Menina que Roubava Livros
O que precisamos saber antes de ver Animais Fantásticos e Onde Habitam?

0 Comentários

Deixe o seu comentário!

Facebook